Sepultura – “Quadra” (2020)

Sepultura – “Quadra” (2020)

Nuclear Blast/BMG Brasil

Thrash Metal

 

Nota: 9,5

 

O conceito de inovação é sempre algo muito delicado a se tratar em um meio musical tão complexo e ramificado como o Heavy Metal. Apesar disso, ao longo das décadas, existiram inúmeras revoluções que surgiram e que se eternizaram nesse meio. Tratando-se de um país em que coisas absurdas acontecem, tanto para o bem quanto para o mal, é natural que a nossa riqueza cultural e criatividade aflorem, até mesmo como um meio de sobrevivência. Foi nesse cenário, que o Sepultura fez a sua indiscutível história e, mesmo em 2020, ainda continua mantendo a sua marca e inovando cada vez mais nessa trajetória.

O que escutamos do Sepultura, hoje em dia, é resultado de uma década muito prolífica, onde o contrato com uma grande gravadora e a continuidade de excelentes lançamentos e extensas turnês, são frutos da resistência deles. Afinal, sonoramente falando, eu percebo uma banda muito bem consolidada desde o belíssimo “Dante XXI” (2006), porém era questão de tempo e paciência para que este reconhecimento fosse restaurado.

O atual cenário da banda consiste em Andreas Kisser que, há um bom tempo, está em um dos seus melhores momentos criativos, aliado ao devastador Eloy Casagrande, que deixou a sua marca na história da banda e não para de expandir a sua técnica. Paulo Xisto não hesita em demonstrar o quanto se esforçou para acompanhar essa pegada e Derrick Green, também apresenta algo diferenciado, mesmo após mais de 20 anos no posto de ‘frontman’ do grupo.

Abreviando a ideia do álbum, é como se pegássemos um pouco de “Dante XXI”, com “A-lex” (2008), tanto em termos de uma trilha sonora amarrada a um conceito, quanto a sonoridade, mas que foram lapidados e explorados ao extremo, com os moldes conhecidos de “Machine Messiah” (2017), conduzido por um produtor diferenciado, o ‘quinto membro’ Jens Bogren. Conceitualmente o álbum é inspirado no livro Quadrivium, onde os temas cosmologia, música, geometria e matemática remetem ao número quatro numa forma de manifestação. Os questionamentos de muitos dogmas são feitos nesse álbum e mostram como somos limitados, sem questionar o que foi estabelecido pela cultura, religião entre outros vários temas limitadores a humanidade. Em analogia, o título do álbum sugere que nós vivemos em uma quadra conduzida por regras, similar a uma quadra de esportes.

Musicalmente, temos quatro partes, cada uma com três faixas, abordando tudo o que o Sepultura já fez, porém de uma forma diferenciada. A primeira parte é o puro Thrash Metal, visceral e agressivo, a marca registrada do Sepultura, em uma sequência matadora, tendo o auge em “Last Time”. Se a banda resolver tocar isso ao vivo, acho difícil sobrar alguém intacto. A segunda parte não diminui tanto o peso, porém mostra algumas partes percussivas, aliadas a cadências e grooves que casam perfeitamente com uma base mais agressiva. “Capital Enslavement” abre este segmento, lembrando bastante o que já havíamos escutado em “A-lex” (2008), com alguns teclados de fundo e orquestras.

Uma veia mais progressiva marca a terceira parte, iniciando-se de forma acústica com “Guardians of Earth”, acompanhada da levada branda de Eloy Casagrande, em uma atmosfera totalmente épica e com alguns coros, até retomarem a parede sonora. É ainda nessa parte que vem um dos grandes destaques do álbum, a indiscutível instrumental “The Pentagram”, similar a “Iceberg Dance”, do álbum anterior, porém ainda mais agressiva e versátil, mostrando o melhor de todos os instrumentistas. Claro que eu não poderia deixar de mencionar “Autem”, que, em minha opinião, é a que mais trouxe novidade, com arranjos ousados, sendo tocados em performances pouco usuais aos padrões do Metal e com uma incrível maestria.

O último quarto finca a melodia em padrões já executados por Derrick Green, sendo melhor explorado neste álbum, a exemplo da linda “Agony of Defeat”, onde Andreas sola mais limpo e técnico, reforçando a fuga dos padrões já abordados pela banda. O disco encerra com a inusitada, porém marcante, participação de Emmily Barreto (Far From Alaska), em “Fear; Pain; Chaos; Suffering”, com sua voz melódica, casando bem ao extremo de Derrick. Ao invés de um vocal de Heavy Metal tradicional, o lado mais pop da voz de Emmily reforça o que eu digo sobre a fuga dos padrões usuais de uma banda como o Sepultura.

A palavra repetição, definitivamente, não faz parte do vocabulário da banda, fato comprovado e reforçado neste lançamento. O Sepultura inspirou-se em si mesmo e compilou o melhor da ‘Derrick Ages’ junto a tudo o que eles construíram em toda a sua extensa carreira. Ao mesmo tempo, este álbum mostra que não se limitaram a uma ‘quadra’ e buscaram o seu melhor, conseguindo soar inovadores. Não há dúvidas que “Quadra” já se tornou um clássico. Mesmo após décadas entre lutas, conquistas, momentos turbulentos e, principalmente, PERSISTÊNCIA, o Sepultura criou uma inabalável obra prima, que nem o dinheiro, representado pela capa, pode pagar.

Isso não é para qualquer um. Afinal, é o Sepultura do Brasil!

Victor Augusto

 

Agradecimento a William Ribas e Fábio Miloch. Sem vocês, essa resenha não existiria!

 

 

2 thoughts on “Sepultura – “Quadra” (2020)

    • Victor Augusto Post authorReply

      Obrigado. Muito bem editada a resenha!

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