Granada – “Amarre” (2020)

Granada – “Amarre” (2020)

Thrash Metal/Hardcore

 

Nota: 9,5

 

Se alguém me perguntar o que faz as bandas sul americanas terem um certo diferencial em sua forma de tocar ou na forma de se expressarem, provavelmente, eu diria que é o reflexo de toda a porcaria que vivemos num continente que, apesar das tantas maravilhas, é repleto de desgraças. Ao mesmo tempo em que os países são riquíssimos, culturalmente falando, eles são sempre tomados por pobreza, corrupção e violência. É óbvio que tudo isso se reflete na sociedade e, consequentemente, na música que daqui surge.

Os argentinos do Granada chegaram a mais um álbum e trouxeram um conceito baseado em todas essas mazelas em que vivemos. “Amarre” é composto de cinco faixas, com testemunhos, relatos e uma personificação de fatos vividos por uma típica família disfuncional. E não para por aí. Todas as faixas ganharam um vídeo, de forma ilustrativa ao que está sendo tratado, junto com as leis que criminalizam aquele determinado abuso, bem como os telefones para a denuncia de tal crime, na Argentina. Trata-se de uma excelente forma de conscientização populacional, através da música, algo que nem os políticos conseguiriam fazer tão bem.

O Thrash/Hardcore rápido e agressivo de “Autoridad” já passa a ideia dos pais autoritários, despreparados para terem filhos e que os mantêm numa vida aprisionada. Os riffs tortuosos, blast beats e quebradas de ritmo com muito peso, ao estilo Agnostic Front em “Golpes”,retratam a violência a mulher, com frases que fazem referência a cerimônia de casamento (até que a morte nos separe) e um desabafo de como aquela situação chegou a tal ponto. A veia Hardcore e Punk mais escancarada em “Sometido”, que não deixa de encaixar boas e curtas passagens de bumbo duplo na bateria e um solo de guitarra ao estilo Andreas Kisser (Sepultura), é um desabafo de quem já perdeu as esperanças de lutar e aguarda a morte como uma forma de libertação. O Death Metal diluído na sonoridade do trio, com a furiosa e veloz “Castracion”, contando com bases bem pesadas ao final, lembrando Trey Azagthoth (Morbid Angel), tem o seu tema ligado aos abusos dentro da igreja. O desfecho, com a tortuosa e arrastada faixa título, é cheia de ritmos quebrados propositalmente, dando uma sensação de agonia e sofrimento. Esta última deixa a impressão de um breve suspiro de se reerguer e sair dessas amarras da vida.

O vocal rasgado e, por vezes mais baixo de Guille Estevez, dá uma boa interpretação para as letras em espanhol, junto a sua guitarra precisa. A bateria de Marcos Edwards é uma aula de versatilidade, indo do Punk ao Thrash/Death em segundos, sendo a força motriz da agressividade e empolgação do disco. O baixo não teve vez aqui, mas a segunda guitarra de Damián Mayster manteve um bom grave em sua timbragem e afinação, conseguindo a sonoridade adequada que a banda precisa.

Para criar uma atmosfera mais agressiva, a gravação foi feita ao vivo, no estúdio El Attic, de forma analógica, sem edições ou ajustes. Tudo em uma tomada só! A crueza gerada, aumentou a atmosfera sombria da temática, extraindo uma excelente sonoridade, musicalmente falando. Ao longo dos seus vinte e poucos minutos de duração, “Amarre” mostra o que uma banda é capaz de fazer quando resolve transformar toda a sua raiva e protesto em música. Some isso a toda técnica e experiência desse trio, para que o resultado seja algo, no mínimo, excepcional.

AGUANTE GRANADA!

Victor Augusto

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