Kadabra – “Remains of The Past” (2019)

Kadabra – “Remains of The Past” (2019)
Heavy Metal/Thrash Metal

Nota: 8,0

Uma das coisas legais de acompanhar bandas emergentes é ver os resultados e os frutos que elas colhem, quando se dedicam e levam a sério o seu trabalho no meio musical. E, honestamente, estas atitudes profissionais que acabo de citar, estão em falta na maioria delas, em nosso país. O caso do Kadabra, eu posso afirmar que se encaixa na exceção desta regra e eu fui um felizardo de acompanha-los desde a sua criação. Surgidos em 2016, o trio, que é voltado ao Heavy tradicional e ao Thrash Metal, gravou o muito bom “Devastation’s Songs” (2017) antes mesmo de realizarem algum show, somente com incansáveis ensaios. Tendo um bom material em mãos, puderam cair na estrada e assim veio a maturidade oriunda de inúmeros shows. Com apenas uma mudança na formação, a troca do baterista, acabam de chegar ao seu segundo álbum.

E o que mudou? Se anteriormente o Thrash Metal vinha bem mais mesclado com o Heavy tradicional na sonoridade do trio de Vinhedo – SP, agora temos uma agressividade bem mais destacada ao peso Thrash e a incorporação de elementos até do Death Metal, como passagens de bateria mais extremas e velozes. Os vocais também focam mais nos rasgados e guturais, do que a linha melódica, anteriormente mais utilizada pelo grupo. O curioso é que a veia de Heavy tradicional também ganhou um destaque em meio a essas mudanças. Muitas quebradas de andamentos, com riffs que cairiam muito bem em um Judas Priest dos anos 80, além das harmonias, timbragens de guitarra e algumas estruturas foram muito bem trabalhadas faixa a faixa.

A gravação optou por um som bem cru, principalmente na bateria, que soa quase que uma captação 100% natural, com exceção da captação dos pratos. Isso ajudou nessa vibe clássica, porém tirou um pouco da pegada nas partes mais extremas. Apesar disso, é nítido que a entrada de Ian trouxe bastante energia para as composições e isso é perceptível logo na introdução de “Straight to the Heart”, a primeira faixa do álbum que abre com um solo de bateria isolado de qualquer instrumento, após a breve faixa de introdução “Liberty”. Paulo Bertoni é bem versátil nos riffs e solos, como podemos ouvir em “The Blackboard”, na qual ele criou desde guitarras limpas até passagens mais complexas e bem pesadas. Essa faixa ainda conta com efeitos do baixo de Danilo que divide bem os vocais com Paulo ao longo do disco.

A instrumental “Seasons of Life” mostra um lado mais “experimental” do grupo, onde ousaram ritmos mais soltos, juntos a belas melodias e muitas mudanças de bases, que a deixaram bem interessante e com várias atmosferas. E é bem nesta linha que o álbum segue até a saideira “Remains of The Past”.

É nítido a evolução do trio neste álbum. Ainda temos o Kadabra original, mas que deu vários passos para sacramentar a sua uma identidade sonora. Infelizmente, eu achei que a produção não conseguiu captar todo o potencial da obra, mesmo que seja bem interessante a ideia de algo mais orgânico. Em alguns momentos, uma passagem de guitarra ou até mesmo uma virada ou entrada de bumbos duplos, que sem dúvidas quebraria o pescoço de qualquer headbanger, acabam perdendo a força e a empolgação. A banda foi muito maior do que a gravação pode reproduzir, mas numa primeira audição fica difícil captar essa riqueza e num mundo imediatista em termos de ouvintes saturados de lançamentos descartáveis, isso pode ser prejudicial ao destaque que o Kadabra merece. Se você for um dos que ainda escuta várias vezes um álbum, certamente sacará tudo o que eu comentei.

Quanto a parte lírica, os temas abordados tratam conflitos internos e pessoais, destacados pela bela arte de capa, que mostra um tronco e galhos secos do que já foi uma árvore, sobrevivendo em um terreno árido e hostil. Talvez essa imagem represente, em analogia, a sobrevivência dentro do underground, mas também parece significar a resistência as tormentas da vida e conseguir renascer após momentos difíceis, onde, por pouco, não fadamos ao falecimento ou a falência em quaisquer aspectos.

Acredito que mesmo com os percalços que citei, “Remains of The Past” repassa aquela sensação similar à de um pai quando vê o seu filho, outrora bebê, iniciando os primeiros passos e executando tarefas de forma independente. Não tenho dúvidas que essas nove faixas soarão muito bem em qualquer PA de uma casa de show.

Victor Augusto

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