Resenha de show – Metal Day I

Metal Day I
Jai Club, São Paulo – SP
15/09/19
Produtora: Agência OM

Por Victor Augusto

Uma das poucas coisas boas das minhas inúmeras viagens a trabalho para o interior de São Paulo é a oportunidade de assistir as boas bandas que o estado oferece. Além de ser uma forma de aliviar o cansaço e estresse, acaba sendo um meio de me sentir acolhido pelos amigos e irmãos que a música me proporcionou. Quando coincidi de eu estar envolvido com a cobertura do evento, isso tudo ganha um sabor a mais.

Ainda cedo no aeroporto de Brasília, esperando a decolagem, acabei me lembrando dos acontecimentos do ano passado, quando eu faria a minha primeira cobertura em São Paulo. Um quase falecimento do meu pai acabou mudando os planos. Passado o susto, veio a ansiedade para que desta vez tudo ocorresse bem e tudo foi recompensado pela euforia e alegria em rever e conhecer novos amigos, mesmo com um pouco de cansaço da viagem.

Bom. Chega de papo furado e vamos ao que interessa.

HellgardeN

A primeira atração da tarde foi o HellgardeN, uma das novas bandas que surgem no quintal de nossa casa e que nos faz agradecer por ainda existirem jovens dispostos a entrar nesse mundo tão único da música pesada, porém tão cheia de obstáculos e percalços. O quarteto de Botucatu – SP está prestes a lançar o seu primeiro álbum e deram uma boa amostra do que está por vir.

Sem nenhum aviso e com um atraso ínfimo, o HellgardeN deixou bem claro que não estava para brincadeiras e eles deram o sangue numa apresentação que não faltou energia. Uma insanidade bem ao estilo Pantera de tocar, que sem dúvidas é a grande influência deles. Que pegada o baterista Matheus Barreiros tem. Ele não perdoou o kit. Caick Gabriel mostrou toda a sua técnica nos solos, apesar de usar e abusar da alavanca e em vários momentos. Em algumas partes mais pesadas, o som deles acaba remetendo ao bom e velho Slayer. Se Guilherme Biondo não deixa por menos com o seu baixo, o Vocalista Diego Pascuci segue solto no palco e sem parar um segundo. No final do show, ele até chegou a puxar uma roda no meio do público.

Uma prova de que a banda se sente à vontade no palco, apesar do pouco tempo de estrada, foi a forma descontraída que lidaram com uma pequena pane no pedal da bateria, onde brincaram que quando tocam duas vezes a mesma música, ela fica ainda mais foda. A única faixa liberada pelo grupo, em suas redes sociais, é o vídeo de “Learned to Play Dirty”, que soou muito bem ao vivo. Ela é uma boa chance para conhecer o estilo da banda, para quem nunca ouviu nada deles. Entre muito Thrash e empolgação, contando com a ajuda do som da casa, que estava muito bem equalizado e nítido, o HellgardeN conseguiu puxar um público considerável para o início do evento.

Set List:

Spit on Hipocrisy
Learned to Play Dirty
Belive in Yourself or De
Fuck the consequences
Brainwash
Making Noise, Living Fast
Evolution or Destruction
Possessed by Noise

Kamala

Antes de qualquer coisa, eu não teria como deixar de mencionar que um dos motivos de eu ter chegado até este evento, foi a vontade de assistir, novamente, ao show do Kamala, afinal o trio de Campinas-SP já tem anos que está arregaçando mundo afora e eles que abriram a porta para eu chegar até a produtora do evento. Segurar o lado fã e admirador do grupo não foi fácil, mas consegui o suficiente para tentar descrever o que foi o show.

Após breves acordes, a casa veio abaixo com “Internal Peace”, sem a intro acústica, e mais uma vez os bateristas roubaram a cena. Neste caso, a baterista Isabela Moraes, que não teve dó das peles de seu kit, nem de seu pescoço de tanto que bateu cabeça. O entrosamento do grupo é uma característica de bandas que, além dos mais de quinze anos de experiência, tem uma vivência de palco e de turnês mundo afora. Percebi que eles emendavam as músicas praticamente uma na outra, com breves segundos anunciando-as, o que foi algo interessante, pois não deixava a energia cair e ajuda a abranger um set maior, sem estender demais o show.

Dentre os vários sons de seu último álbum, o “Eyes of Creatoin” (2018), o destaque acabou sendo a belíssima “Believe”, afinal este é um som que define muito bem o que o Kamala se tornou hoje em dia. Ela dá um show de riffs e um show de levadas rápidas alternadas com partes cadenciadas de bateria, além de um show de linhas de baixo que atuam sorrateiramente ao fundo de toda a parede sonora. Me pareceu que Allan Malavasi está muito mais à vontade com os vocais e com uma postura marcante de frontman, sabendo guiar a banda e interagir com os fãs. Isso deixou Raphael Olmos, o frontman original, mais à vontade com o que ele sabe fazer de melhor, que é dar uma aula de riffs. Ele também permanece como vocalista e o seu timbre de voz complementa muito bem o de Allan.

Uma das surpresas que o Kamala trouxe nesta noite, foi a inédita “My Will Be Done”, música ainda a ser gravada, mostrando um lado mais Thrash e direto. A excelente “My Religion”, do álbum “Mantra” (2015), foi bem pensada em ser tocada próxima ao fim do ser, pois o seu clima arrastado, com uma percussão bem explorada, pode mostrar alguns detalhes e uma forma diferente do grupo tocar. Novamente o baixo de Allan foi sorrateiro, dando uma força a mais em algumas batidas de Isabela e contando com um breve dedilhado, mostrando o lado mais técnico da banda. Até aí qualquer pessoa “normal” conseguiu acompanhar o show, até que veio o ponto alto, a última música do show. Só precisou de uma breve aula do refrão antes de começar o que foi, provavelmente, o momento mais agressivo da noite, a faixa “Mantra”. Ela não é escolhida ao acaso para fechar o show, afinal é um dos sons mais violentos e completos do Kamala. Quase que uma “Angel of Death” ou “Rainning Blood” (Slayer) deles, mas com uma cara bem própria. Uma aula de Thrash Metal, com um refrão que puxa o máximo de cada fã. Sem dúvidas, ela será sempre o ponto forte do grupo.

Aquela sensação após um show, de que todo o sacrifício do seu dia valeu a pena, foi impagável. O Kamala é um exemplo de banda, não só pelo seu som, mas também por seu profissionalismo no palco e na forma que gerenciam a sua carreira. Eles são um nome que merece despontar mundo afora e fazer o brasileiro sentir orgulho de tê-los por aqui. Raphael Olmos não deixou de agradecer a todos os fãs, músicos, apoiadores e sites que estavam lá presentes, mas é nós que agradecemos a eles por termos bandas assim em nossos palcos.

Setlist:
Internal Peace
Open Door
Believe
Take Away
My Will Be Done
Stay With Me
My Religion
Mantra

Setfire

A terceira banda da noite, o setfire, aparentou ter um público bem cativo na região, pois a casa permaneceu com uma boa quantidade de pessoas, mesmo depois das duas grandes apresentações anteriores. O grupo de Mauá (ABC paulista) apresenta uma proposta bem dividida entre o Thrash e o Death Metal, contando com dois guitarristas bem técnicos, o que deu um peso a mais na sonoridade.

Uma das coisas que ficou bem claro ainda na abertura do show é a simpatia dos integrantes, pois ficou nítido a alegria deles em estarem ali, num domingo à noite, tocando para fãs tão fiéis. O vocalista Artur Morais, foi bem comunicativo entre cada música, ressaltando essa simpatia e sempre chamando a galera para perto. A sua presença de palco foi muito boa também. O seu vocal alterna gutural e rasgados, que por vezes são um pouco estendidos demais. Mesmo com uma pequena pane em uma das guitarras ainda na primeira música, rapidamente sanada pela equipe técnica, eles souberam contornar e continuaram de onde pararam.

Alguns sons, mostraram que o Setfire também tem músicas bem trabalhadas, explorando harmonias entre as duas guitarras, o que dava uma boa quebrada no som e na cadência, antes de voltarem com algo mais rápido e pesado. Gostei do groove que eles conseguem impor e fizeram um belo show entre bastante pegada e técnica. Provavelmente o fato do grupo também já ter um tempo considerável de estrada, tenha os ajudado na postura no palco, gerando uma resposta bem positiva da plateia.

Set List:

Spots of Blood
Nordeste
Paranoia
Revolution of Machines
Careless
Macaco ou Rato
Envy shit
Paralized

Drowned

Confesso que nesta altura do show, depois do dia inteiro na rua, o cansaço bateu forte. Graças ao bom DIO, a grande atração da noite era a banda mineira Drowned, que conta com uma história bem rica na música brasileira e estão divulgando o seu sétimo álbum, o “7th”. O interessante de um grupo com tantos anos de estrada é que a experiência em ousar e inovar se torna algo presente e natural, pois foi o que pude perceber no último álbum, com muitas músicas divulgadas neste show.

As empolgantes batidas de “The Bitter Art of Detestation” iniciaram o show e, como pude imaginar, senti o lado mais introspectivo na sonoridade, sem perder o peso característico que eles apresentam. O quarteto tem uma presença bem cativante no palco. Eles tocam e interagem de forma tão natural, que parecia que os fãs presentes eram amigos de longa data. Várias vezes o vocalista Fernando Lima veio bem à beira do palco, como se fosse cantar junto ao público, enquanto o guitarrista Marcos Amorim fazia as suas partes de vocais melódicos, que ficaram muito boas na sonoridade do Drowned. Marcos também demonstrou uma grande técnica e peso junto ao baixista Rafael Porto.

Uma coisa bem interessante é que entre cada música, o Fernando falava um pouco a história de qual disco e ano que ela surgiu. Foi quase como um show biográfico da banda, onde tivemos músicas como AK47, Belligerent e Bio-violence, de álbuns antigos, além de bastante sons novos, que soam tão clássica quanto as antigas, a exemplo da “Rage Before Some Hope “.

Um ponto interessante na bateria de Beto Loureiro é algumas batidas a mais tom por tom, diferente das típicas viradas, o que demonstra que eles exploram bem o lado técnico e cadenciado, além do peso típico.

O Drowned fechou a noite de shows, mostrando que fazem parte da rica história da música pesada no Brasil. Um show com uma energia diferente e um quarteto cativante, que me fez sentir entre familiares, mesmo que eu nunca tenha visto a maioria dos presentes até então. Orgulho de bandas assim é a frase que define a sensação após o show dos mineiros.

SetList:

The Bitter Art of Detestation
Rage Before Some Hope
Violent March of Chaos
Timebomb Conscience
Elitist Heaven Ruled By Evil
Damaged Wood Coffins
Bio-violence
AK-47
Belligerent
Payback Engine
Back From Hell
Third Master
Learn to Obey
Spiritual Force to Kill

Parabéns a produtora Agência OM e ao Phill Lima pela excelente produção. Além de abrir espaço para bandas de excelente qualidade, seja ela nova ou com muita experiência, mantiveram a organização e o som impecável. Parabéns também aos fãs que compareceram em pleno domingo a tarde, entre eles vários músicos da região.

Pessoalmente, foi uma satisfação e um prazer poder ter realizado a minha primeira cobertura de show em São Paulo, neste evento em específico.

Fotos e vídeos: Victor Augusto

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *