Resenha de show – United Underground 2

United Underground 2
RagnaRock Cultura Underground, Brasília-DF
30/08/19
Por Victor Augusto
Produtora: Convergência Social

Com o intuito de celebrar a tão falada união no meio musical de Brasília, o festival United Underground surgiu com o propósito de abrir espaço para as inúmeras bandas talentosas que surgem no DF e oferecer uma grande noite de celebração para os fãs de música pesada e para os grupos que fazem parte dessa cena.

Realizado pela Convergência Social, que além de produção de shows e de vídeos ao vivo, ela ainda realiza serviços sociais com a arrecadação de alimentos, roupas e brinquedos, na forma de ingresso social. O seu idealizador e também baterista, João Paulo Mancha, iniciou o evento com um breve discurso de agradecimento aos fãs que compareceram em grande número desde o início do evento e só as suas palavras sobre os que pregam união, mas na verdade só sabem segregar, já valeu a noite. De fato, ele descreveu muito bem o atual cenário, onde as brigas e intrigas tomaram maior vulto do que a música em si.


Arandu Arakuaa

Com a casa já bem cheia e perto das 22 horas, o grupo Arandu Arakuaa iniciou a sua apresentação e mais uma vez me questionei mentalmente em qual planeta que eu vivo, por nunca ter prestado atenção nesse grupo há mais tempo. O quarteto estrutura a sua sonoridade em cânticos indígenas, com letras no Tupi e, em cima de toda essa riqueza sonora, adicionam o tradicional peso de guitarras que tendem ao Heavy Metal pesado, digamos assim. Eu não soube distinguir, de início, qual o estilo exatamente que eles tocam, tamanha a magnitude do som deles.

Obviamente a parte percussiva, conduzida pelo já mencionado Mancha, é bem presente, trocando velocidade por batidas pesadas e mais cadenciadas. Elas abrem espaço para várias quebradas de andamentos. A sincronia que o Zândhio Huku (vocal/guitarra), Andressa Barbosa (baixo/voz) e Guilherme Cezario (guitarra/voz) têm ao parar os seus instrumentos e darem início as passagens com Maracá é impressionante. Em algumas passagens eu notei que Andressa tocava simultaneamente Maracá com uma mão e poucas notas em seu baixo com a outra, mostrando o domínio dela com ambos instrumentos.

As variações rítmicas deixam o som do grupo bem criativo e original. Perto do final do set, após Zândhio trocar a sua guitarra de dois braços (adaptada para ter também o som de viola) por uma Jackson, eu notei que as músicas tenderam a algo que flerte mais com o Death Metal. Desta vez, os sons indígenas passaram a ser mais como complemento, com mais vocais guturais, mas sem perder as vozes melódicas de Andressa.

A banda explicou que o tema de suas letras fala sobre a preservação da natureza e reforçou o alerta de como ela tem sido devastada cruelmente e assim o Arandu Arakuaa finalizou a sua excelente apresentação deixando a todos bem impressionados com o que apresentaram.

Set List:

Huku Hêmba
Ipredu
Güyrá
Rowahtu-ze
îasy
Abaré Angaíba
Jurupari


Beholder’s Cult

Confesso que eu estava num misto de curiosidade e ansiedade para ver o Beholder’s Cult pela primeira vez. Após resenhar o EP de estreia, o “Cult of Solitude” (2018), aqui na Rock Nation, eu não via a hora de presencia-los ao vivo. Imersos no que o Doom Metal tem de característico, o quarteto consegue deixar tudo harmônico, com simples acordes e melodias que prendem a atenção.

O teclado de Pedro Paes é o grande guia e o criador da atmosfera que simboliza a sonoridade do grupo. O peso vem com a pegada de Felipe Stock (vocal/guitarra) e Rafael Giraldi (baixo/vocal). Da mesma forma que há um grande equilíbrio e vida quase que independente de todos os instrumentos no álbum, ao vivo não foi diferente e a boa equalização do local conseguiu extrair o que havia de melhor na apresentação.

Vale ressaltar que a presença de palco pacata, porém forte, aumentou a curiosidade e manteve os fãs atentos a cada detalhe. Felipe brincou que eles deveriam ser a banda menos animada do dia, mas muito pelo contrário. Eles empolgam pelo clima e qualidade na qual se propõem a tocar um estilo tão pouco abordado no Brasil.

Com sons a serem gravados e músicas do primeiro EP, eu não poderia deixar de destacar o ponto alto da apresentação, a belíssima “Guidance”. Que música é essa? Digamos que ela pode ser considerada o hino do Beholder’s Cult. Aquela faixa que o grupo nunca poderá deixar de tocar em seus shows.

Set curto, cativante e empolgante. Assim posso descrever a minha primeira experiência ao vivo com o Beholder’s Cult e espero presencia-los mais vezes.

Set List Beholder’s Cult

Shadows
Ghosts From the Past
Hopeless Solitude
Conceiving Silence
Guidance
Eternal Circles


Fleshpyre

Assistir a um show do Fleshpyre gera sempre a preocupação em saber em qual estado ficaremos após a apresentação. Apesar do pouco tempo de criação, o quarteto demonstra um entrosamento e técnica extremamente absurda. Nada diferente do que já é de se imaginar para quem conhece o poderoso álbum de estreia “Unburying The
Horses of War”, lançado ano passado.

Yuri Sabaoth, ainda nos cheques finais de som, já mostrava a sua capacidade em guturais alternados com timbres mais rasgado. Além disso ele sempre surpreende por sua interpretação e movimentos em cima do palco, aumentando o tom épico do Death Metal que a banda toca. Diego Lima (guitarra), junto a Victor Hormidas (multi-instrumentista das bandas Degola, DarkRazor e Peso Morto) substituindo Josivan no baixo para este show, foram responsáveis pelas pesadas bases que não ficam se repetindo. Daniel Moscardini, como sempre, pulveriza a bateria com inúmeras viradas, quebradas de ritmo e partes bem extremas.

Difícil não se empolgar com grandes sons, como a faixa título do álbum ou ”Nous”, música que até ganhou um belo vídeo. O Set preciso do quarteto mostrou mais uma vez o que eles realmente são. Uma banda com uma sonoridade épica, direta e brutal.

Set List Fleshpyre:

Unburying The Horses of War
Nous
Bodily Ecstasy
The Wanderer
FleshPyre
Perpetator
March of Defeat


Mofo

Antes de começar a apresentação do Mofo, o baterista Mancha, que além de organizar o evento e ter feito jornada dupla, tocando com o Arandu Arakuaa e Mofo, agradeceu a força do guitarrista Arthur Colonna por estar presente com a banda, mesmo após o recente falecimento de seu pai, e dedicou o show em memória do mesmo arrancando aplausos e quase que algumas lágrimas dos mais chegados a ele.

Cada dia mais entrosados e insanos, o Mofo simplesmente fez uma apresentação matadora. Era incrível como eles não paravam um segundo no palco em meio a sons bem pesados e rápidos, algo que se tornou a marca registrada do quinteto. O guitarrista Rodrigo Shakal sempre entrando no meio das rodas enquanto toca e Arthur completando a guitarra na outra ponta também não se contém com a empolgação de cada riff. Mancha, como sempre, sentou o braço em seu kit e dessa vez, diferente da pegada da sua apresentação anterior com o Arandu Arakuaa, a velocidade e peso foi priorizada, sem deixar o lado percussivo de fora.

Pedro Dinis, que tem o seu timbre de baixo cada vez mais presente no som, também não para no palco e foi responsável pelos diálogos mais engraçados da noite, anunciando o concurso de melhor roda da noite, onde o premiado ganharia uma esfiha de calabresa fria. E sim! Ele tinha um pote com uma esfiha de calabresa fria no palco.

O set foi majoritariamente composto de sons novos, a serem gravados pela banda, mostrando uma nova pegada que tende a incorporar Death Metal ao Thrash usual deles. De seu primeiro EP, “Empire of Self-Regard” (2017), destaque para a “Eternal Stealing of Soul”, onde Arthur puxou a clássica frase do ex-presidente americano Ronald Reagan, referida ao então líder da união Soviética Mikhail Gorbachev, em 1987, cujo um curto trecho abre esta faixa no disco. O mais bonito foi ver o coro da plateia com a banda, berrando “tear down this wall” e mostrando que o Mofo não é desconhecido no underground.

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O vocalista Emiliano Costa estava com o mesmo ritmo de palco de seus companheiros. Eu percebi que sua técnica vocal avançou muito em relação aos primeiros shows que assisti do grupo há dois anos atrás. O que poucos sabiam era que ele estava debilitado de saúde naquela semana e no seu limite físico. Isso tudo, aliado ao extremo calor e seca alarmante, comum dessa época do ano na cidade, acabou gerando apagão nele enquanto cantava a faixa “Purgatory”. Após a sua queda, de barriga no retorno e indo de cara no chão, ninguém sabia exatamente o que tinha acontecido, mas ao ver ele aparentemente iniciando uma curta convulsão, imediatamente o show foi interrompido e sabiamente encerrado por Mancha. Para a alegria de todos os fãs e amigos, não foi nada demais e na mesma noite já tivemos a notícia que Emiliano teve alta e está 100%! Inclusive ele que deve ter comido a esfiha de calabresa para repor as energias (risos).

Mesmo com o show interrompido perto do final, foi possível ver um novo Mofo que está por surgir. Sem dúvidas uma banda deixou de ser uma revelação para um novo patamar. Com a qualidade de seus músicos, somada a experiência de shows dentro e fora do DF, incluindo uma mini turnê por São Paulo, é notório que esses caras vão longe e eu sou o primeiro a querer ver isso de perto.

Set List Mofo:

Adrenalina
Frank
Eternal Stealing of Souls
Let Them Fall
Final Experiment
Brothers of Death
Hate and Disgrace
Purgatory


Isaurian

Nascido das cinzas do Optical Faze, o Isaurian surgiu com uma proposta mais voltada ao Doom Metal e vem angariando espaço na cena do DF após os EPs “All the Darkness Looks Alive” (2017) e “Dead Flower of Youth” (2018). Desde a primeira vez que eu os assisti ao vivo, no Ferroada Fest de 2017, não tive a oportunidade de conferir mais shows do grupo e devo admitir que o que eu vi, desta vez, foi uma outra banda.

Provavelmente eu não era tão adaptado ao estilo de som proposto pelo grupo naquela época, mas é inegável a evolução de Jorge Rabelo, desde que iniciou essa empreitada nos vocais, além do já antigo papel de guitarrista. Ver ele junto ao seu parceiro de longa data, o baixista Vicente Junior, foi um sentimento nostálgico dos dias de Optical Faze. Sem dúvida os aproximados 20 anos de estrada desses caras fazem a diferença. Dessa vez o outro parceiro de longa data, o tecladista Pedro Gabriel, não pode comparecer por problemas de saúde, mas a banda teve a maturidade de manter o som cheio, mesmo com a ausência dos teclados marcantes de Pedro.

Guilherme Tanner, que saiu da bateria para a segunda guitarra, e Roberto Tavares, que assumiu o posto vago das baquetas, vieram a acrescentar a pegada da banda. Para este show ainda houve a participação mais que especial de Hoanna, contribuindo com camadas extras de vocal melódico e dando um clima maior a musicalidade do Isaurian.

Certamente, dentre a proposta mais arrastada e bem melódica que o grupo toca, o peso continua lá, bem presente. Eu diria até mesmo que está no DNA e nas raízes dos integrantes. Sons como “Way Down” e “Hologram” mostram bem a sonoridade que o Isaurian faz e destaco a importância do surgimento deles, dando força a um estilo que tende a crescer na cidade de Brasília-DF. Entre peso, melodia e uma atmosfera densa, eles encerraram, com classe, a apresentação das bandas autorais da noite.

Set List Isaurian:

Way Down
The Elder
The Callow
Hologram
Golden Sky

O evento ainda teve um tributo ao Type O Negative, contando com músicos de várias bandas juntos, encerrando uma excelente noite de shows.

Vale destacar que o som no local estava excelente, como poucas vezes eu escutei no local e muito disso deve-se a preocupação dos produtores em trazer um ótimo backline e ao técnico de som que foi bem elogiado durante o show do Mofo.

Que mais eventos se inspirem no United Underground e que realmente haja um crescimento da tão sonhada união neste meio. Em nome da Rádio Rock Nation, eu agradeço pela oportunidade de cobrir este evento tão bem organizado.

Texto, fotos e Vídeos: Victor Augusto

Agradecimentos:
-Wesley, por sempre ceder o espaço do RagnaRock a música pesada.
-Ed, operador de som e luz, pela excelente qualidade que tira das bandas.
-Rafael Giraldi, do Texas estúdio, pelo apoio no backline do evento.
-A todos os Headbangers que compareceram, demonstrando atitude!

2 Comments:

  1. Sensacional, Victor!!! Grato pela incrível cobertura e parabéns pelo belo registro!! Amplo e detalhista como só você consegue pontuar!!!! Em nome do Convergência Social, agradeço e reconheço que o mundo precisava de uns 10 mais como você! rs…
    @tmj

    1. Muito Obrigado pelas palavras. Estendo as palavras a você. O mundo precisava de mais uns 10 produtores assim!

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