DF Metal – II (2018) DVD

DF Metal – II (2018) DVD

Nota: 9,0

A vida é capaz de nos surpreender com distintos eventos que se conectam de uma forma ou de outra. Antes de falar sobre o DVD em si, eu não poderia deixar de contar a breve história que me fez chegar até este material. Em maio de 2017, eu meio louco das ideias (bêbado), resolvi fazer um teste para entrar no grande site Metal na Lata e acabei conquistando uma das vagas, mesmo sem nunca ter escrito uma resenha na minha vida. Com a paixão de querer apoiar as bandas nacionais, um sonho bem bobo na época, acabei permanecendo no site por dois anos. E, com as 200 resenhas de álbuns, shows e entrevistas, eu acabei conhecendo um pouco mais desse meio e fazendo amizades com várias bandas, principalmente no Distrito Federal, além de outras portas que se abriram, como, por exemplo, as minhas eventuais participações e resenhas nesta rádio.

Num determinado momento, meu amigo Willian Ribas, redator do Metal na Lata, sugeriu que eu fizesse uma matéria sobre a cena do Distrito Federal, com foco nas inúmeras bandas boas e novas que vinham surgindo. Assim, eu iniciei uma mini jornada para esta matéria, com uma breve citação aos primórdios do Metal no DF e uma abordagem maior no que acontece nos dias atuais. Eu a batizei de “A Arquitetura Sonora de Brasília: New Wave of Candango Heavy Metal”.

Durante as pesquisas, me deparei com o documentário DF Metal (2009) e muito me impressionou a forma que ele mostra a história, por meios de vídeos antigos e entrevistas atuais com integrantes das bandas que fizeram sucesso na década de 80 e início da de 90. Quase dez anos depois, surge a segunda edição do DF Metal e ninguém menos que Henrique Behr, vocalista da banda Fallen Angel (que fecha o DF Metal I e abre o DF Metal II), me cedeu uma unidade deste material. Isso só aconteceu porque eu o conheci após ter sido agraciado em cobrir o show de reunião da banda no Porão do Rock de 2018. Eu não poderia retribuir tamanha gratidão sem escrever algo sobre esse material tão importante para a cena.

DF METAL II

Novamente idealizado por Lelo Nirvana, o DF Metal II mantém a proposta da primeira edição, porém a qualidade gráfica das filmagens é muito superior. Logo no menu do DVD já temos a impactante vista aérea de Brasília, perto do poente. Quem mora em Brasília, sabe que o pôr do sol é uma das maiores belezas da cidade, conhecido como “O Céu do Arquiteto”, e, além disso, mais filmagens da cidade aparecem durante o vídeo, sempre que altera a banda a ser documentada.

Dungeon

A história inicia com o Henrique Behr falando sobre a sua saída do Fallen Angel e a importância que o DF Metal teve para a primeira reunião da banda em 2009, no festival Porão do Rock, que quis celebrar de alguma forma o ano em que Brasília comemorava 50 anos de existência. Dessa separação é que surgiu o Dungeon, com o saudoso guitarrista Fejão assumindo os vocais e tendo que aprender a língua inglesa na marra para as gravações.

Fejão, novamente, foi bem exaltado devido a sua pessoa e competência, onde suas ideias para as músicas são relembradas com bastante humor. Temas como as problemáticas da gravação do álbum, com direito a Polícia Federal no estúdio e a capa desenhada a mão por Fábio Marreco (guitarrista do Totem, produtor do extinto Marreco’s Fest e também ilustrador da capa deste DVD), dão uma visão da criação do importante registro que foi o “See The Light”. Algumas situações, como a utilização de trigger na bateria e uma masterização não muito boa, deixou claro que o resultado do material não foi de agrado de todos os integrantes, apesar do álbum ser apontado como um clássico por vários músicos.

Torino

Após contarem como foi a formação do grupo, ficou bem claro que uma das preocupações do Torino era ter bons efeitos nos palcos, inspirados no que o Kiss e Judas Priest faziam muito bem. A mudança de uma para duas guitarras, se deu quando começaram a tocar cover de “Indians”, do Anthrax, e havia uma preocupação em cantar em português para que a mensagem da banda fosse bem compreendida pelos fãs. Além de terem feito algumas letras em Inglês, o que não deu muito certo, o Torino ainda chegou a cantar em Esperanto, fato inusitado, mas que gerou shows em eventos do tipo.

O fim da banda foi abordado de forma tranquila, por ter sido em função da falta de objetivos e alguns resultados que não surgiram. Não tiveram brigas, mostrando mais as lembranças boas do que ficou. Uma curiosidade é que algumas entrevistas da época já relatavam à falta de apoio e de retorno do público. Alguma semelhança com o que acontece hoje em dia?

Deja-Vu

A origem do Deja-Vu em certo momento é marcada pelas longas viagens de ônibus para os ensaios ou para tocar em outras cidades, se virando de qualquer forma na estrada. Dentre a história das primeiras composições, esboçadas no terraço da casa do Daniel e shows, a apresentação no Gran Circo Lar, ao lado dos mineiros do Mutilator, foi citada como um dos pontos altos da carreira. Além disso, após o envio de fitas mundo afora, conquistaram o segundo lugar de um top 10 em uma rádio na Bélgica, atrás de ninguém menos que o Pantera. Eles também foram eleitos banda revelação em Brasília e tudo isso foi relembrado com bastante orgulho.

O cansaço de ser músico e ter que cuidar de toda a estrutura de palco e burocracia, foi responsável por uma breve pausa da banda. Eles acabaram voltando com nova formação, inspirando o título da demo “A New Beginning”. A banda comentou sobre o fatídico show na Asa Norte, que teve a estreia do Restless abrindo o evento, mas após a apresentação do Deja-vu, jogaram gás lacrimogênio no ginásio e gerou um caos tão grande que não rolou o show da banda mineira WitchHammer . Também comentaram uma história engraçada do show que fizeram no Rio de Janeiro com o Gangrena Gasosa, onde Cleber Aguiar levou um baita susto quando deu de cara com um dos integrantes da banda carioca vestido de Omolú.

Depois da entrada de Júlio Rasec, a banda ganhou peso, porém algumas insatisfações na gravação do que seria o próximo disco, gerou mais uma dissolução parcial da banda e fez com que ficassem pouco tempo a mais na estrada.

Restless

A banda iniciou a sua parte no documentário falando sobre como se conheceram e, em seguida, comentaram a sacada de transformar a fita demo em algo comercializável, com encarte e tudo mais, assim como eram as fitas de álbuns na época. Isso fez as vendas alavancarem. O grupo resolveu investir grana para o primeiro disco, tendo como desafio o lançamento em CD (formato que era caro e novidade na época). Com o material em mãos, chegaram a assinar um contrato com a Eldorado, uma das maiores gravadoras no Brasil naquela década.

Os shows sempre lotados foram lembrados com alegria. Depois dessa repercussão, sentiram a necessidade de gravar um vídeo para o Fúria Metal na MTV, porém esse vídeo feito de forma simples e tocado inúmeras vezes no programa, acabou virando piada na mesma emissora nos anos seguintes.

Os conflitos começaram quando a banda teve que decidir entre ficar em São Paulo ou voltar para Brasília. Com isso, as prioridades e focos diferentes entre os membros, resultou na saída do baixista Fred. A sua substituição veio rápido e lançaram o “Unspeakable” (1996) de forma independente, só que um certo desanimo tomou conta da banda, diante de alguns problemas na cena, até que ela encerrou as suas atividades.

Depoimentos finais

Ao final do vídeo há alguns depoimentos gerais de todos que participaram falando de suas conquistas ou de como eram fãs das outras bandas aqui documentadas, a exemplo de Gustavo Rosa sobre sua admiração pelo Deja-vu, colando na grade para ver os shows deles. Além disso, há uma breve participação do grupo de teatro “Melhores do Mundo” que, particularmente, achei fora de contexto, mas que em nada muda a qualidade do DVD.

Outros pontos altos são as várias cenas de entrevista na MTV, algumas aparições em jornais locais do DF e filmagens de shows da época nos Extras do DVD, que mostram casas lotadas e um público sedento. Apesar de todas as bandas terem encerrado as atividades com um certo sucesso, as histórias relatam mais as conquistas, trazendo um ar nostálgico para quem os acompanhou, do que tristeza pelo fim.

Além do DF Metal mostrar a história de bandas que ajudaram a construir o que Brasília é hoje em dia, em termos de Heavy Metal, ele também mostra figuras que foram importantes para isso, como o produtor Andy Costa, do Zen Estúdios, responsável pela gravação da maioria dessas bandas e Marcos Pinheiros, que até hoje atua divulgando vários eventos por meio de entrevistas na Rádio Cultura. Por fim, a foto de Mario Linhares (vocalista da lendária banda brasiliense Dark Avenger, que faleceu repentinamente em 2017) surge após os créditos como forma de agradecimento a sua obra e legado.

Sem dúvidas que o DF Metal II é um projeto muito mais maduro e bem elaborado que o anterior. Fica uma sensação que todos esses grupos poderiam se reunir para novos shows e até mesmo, lançar novos álbuns, já que a maioria dos integrantes estão vivos e alguns ainda continuam bem atuantes no meio musical. Se nos depoimentos não transparecem ressentimentos, talvez o DF Metal II seja a fagulha que faltava para reacender a chama entre eles.

Victor Augusto

Produção: Villa Audiovisual e Metal Dasantigas

Patrocínio: FAC – Fundo de Apoio a Cultura – DF

Link da matéria “A Arquitetura Sonora de Brasília: New Wave of Candango Heavy Metal”: http://metalnalata.com.br/site/a-arquitetura-sonora-de-brasilia-new-wave-of-candango-heavy-metal/

2 Comments:

  1. Muito boa a resenha, só uma correção é que o ocorrido da bomba de gás lacrimogênio não foi em BH, foi aqui mesmo em Brasília no Colégio Gisno na Asa Norte.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *